Nascendum
Coleção I · A Fundação

O Deus universalista que o Antigo Testamento esconde

22 de agosto de 2026 · 3 min de leitura · Teologia
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Quase toda a gente que abre o Antigo Testamento pela primeira vez sai com a mesma impressão: isto é a história de um Deus de um povo só. Um Deus que escolhe Israel, que luta pelas suas fronteiras, que trata os vizinhos como inimigos ou, na melhor das hipóteses, como espectadores. Tribal, no sentido mais literal da palavra — o deus de uma tribo, contra as tribos vizinhas.

Um caminho antigo entre ruínas do Próximo Oriente, ladeado por estátuas de guardiões e, ao fundo, um muro com uma menorá esculpida

Essa leitura tem base de sobra no próprio texto. Mas há um versículo, em Isaías, que a esse mesmo texto vira do avesso — e que a maioria das leituras apressadas nunca chega a encontrar, porque está enterrado no meio de um oráculo sobre nações estrangeiras, uma das secções que os leitores mais saltam.

Isaías 19 profetiza sobre o Egito — e, a certa altura, sem aviso, muda de tom. Deus promete que o Egito vai voltar-se para ele, que haverá um altar em terra egípcia, que egípcios e assírios vão adorar lado a lado com Israel. E depois vem a frase que interessa aqui, uma das mais radicais de todo o Antigo Testamento:

Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança.

Três nações na mesma frase, com três títulos diferentes — e a ordem é o que choca. Não é "Israel, meu povo; Egito e Assíria, os outros". É Egito primeiro, chamado exatamente pelo termo que se esperaria reservado a Israel: meu povo. Depois a Assíria, chamada obra das minhas mãos — a mesma linguagem usada em toda a Escritura para descrever a criação do próprio ser humano. Israel vem em terceiro lugar, com um título que já não soa a privilégio único, mas a um entre três.

Para sentir o peso disto, é preciso lembrar quem eram estas duas nações para quem ouvia Isaías pela primeira vez. O Egito não era um país qualquer — era a casa da escravidão, o lugar de onde Israel tinha sido arrancado à força séculos antes, o inimigo fundador de toda a narrativa do Êxodo. A Assíria não era melhor — era o império que, no tempo do próprio Isaías, estava a destruir o reino do Norte, a deportar populações inteiras, o terror geopolítico da época. Dizer que Deus chama estes dois povos de "meu povo" e "obra das minhas mãos" não é um gesto de tolerância educada. É dizer, hoje em termos equivalentes, que Deus reclama como seus exatamente aqueles que mais fizeram mal a Israel — e que os chama pelos mesmos nomes com que chama o seu próprio povo eleito.

Isto não é um deslize nem uma frase isolada sem consequência. É uma fissura deliberada num texto que, na superfície, parece construído para separar "os de dentro" dos "os de fora" — uma fissura que insiste em que a fronteira entre quem pertence a Deus e quem não pertence nunca esteve tão fechada quanto os capítulos à volta pareciam sugerir.

É por isto que vale a pena resistir à leitura mais preguiçosa do Antigo Testamento — aquela que o reduz a um só tom, tribal do princípio ao fim. O texto é mais estranho e mais interessante do que essa redução permite: contém, dentro de si, as sementes daquilo que só mais tarde se tornaria explícito e central — um horizonte onde pertencer a Deus deixa de ser questão de nascença ou de fronteira nacional. É esse horizonte, já visível aqui, séculos antes, que o livro segue até à forma mais direta em que apareceria na boca de Jesus.

Há também, nesta fissura de Isaías, algo que fala diretamente à ideia com que abrimos este espaço. Se até a própria categoria de "povo de Deus" nunca esteve definitivamente fechada — se ela se revelou, ao longo dos séculos, uma fronteira sempre a ser renegociada, nunca um mapa definitivo — então isso também é uma obra inacabada. Não só o mundo está por continuar. A própria pergunta sobre quem está dentro e quem está fora está por continuar, e cada geração que a lê de novo tem de decidir se vai alargar essa fronteira ou fechá-la mais um pouco. Isaías, no meio de um oráculo sobre impérios estrangeiros, escolheu alargá-la.

A carta de Nascendum

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