Nascendum
Dossiê

Saúde mental no centro de um congresso global sobre psicologia e bem-estar

23 de agosto de 2026 · Psicologia, Sociedade

O Global Congress on Psychology and Mental Health (GCPMH 2026) está marcado para os dias 15 a 17 de dezembro de 2026, num formato virtual com localização formal em Cheyenne, Wyoming, nos Estados Unidos. Organizado pela International Association of Researchers (IAR), o congresso pretende reunir investigadores, académicos, clínicos e profissionais de diferentes áreas para discutir problemas atuais e novas abordagens no domínio da psicologia e da saúde mental. A organização apresenta o encontro como uma plataforma internacional destinada à divulgação de investigação, ao intercâmbio científico e à colaboração interdisciplinar.

Uma composição abstrata em aquarela dourada e verde-sálvia sobre uma grelha técnica, com as frases manuscritas "O sofrimento é também sentido" e "Pessoas diferentes aprendem a permanecer juntas"
Entre a grelha que mede e a corrente que sente — duas linguagens para a mesma experiência humana

O programa anunciado abrange um espectro particularmente amplo de áreas, incluindo psicologia clínica, psicoterapia, neurociência e psicologia cognitiva, psicologia do desenvolvimento e educação, psicologia social, psicologia da saúde e bem-estar, psicologia digital e tecnologias emergentes, além de novas tendências na investigação psicológica. Entre os temas gerais encontram-se ainda a prevenção, o diagnóstico e tratamento de problemas de saúde mental e as abordagens comunitárias. O formato virtual deverá permitir a participação de investigadores e profissionais de diferentes países, reforçando a dimensão internacional pretendida pela organização.

Um dos aspetos que mais se destaca na proposta é precisamente a amplitude do conceito de saúde mental. O congresso não se limita à prática clínica ou ao tratamento da doença: inclui investigação sobre comportamento, desenvolvimento, bem-estar, relações sociais, tecnologia e diferentes formas de intervenção psicológica. A organização pretende ainda favorecer o diálogo entre áreas distintas da psicologia, psiquiatria e cuidados de saúde mental. Os trabalhos aceites deverão integrar um Book of Abstracts, com ISBN, estando previsto também um DOI individual para cada contribuição.

A realização do congresso acontece num momento em que a saúde mental ocupa um espaço crescente no debate público internacional. O aumento da atenção dada ao bem-estar psicológico, às relações sociais, ao impacto das tecnologias digitais e às diferentes formas de sofrimento coloca uma questão que ultrapassa o domínio estritamente clínico: como deve uma sociedade compreender aquilo que significa viver bem? A resposta não depende apenas da capacidade de diagnosticar perturbações ou desenvolver tratamentos — exige também compreender as condições sociais, culturais, relacionais e existenciais que tornam uma vida humana mais ou menos habitável.

Para acompanhar este tipo de cobertura internacional, veja, por exemplo, a informação disponibilizada pela International Association of Researchers.

O olhar Nascendum
Por Equipa Nascendum

A crescente atenção à saúde mental é, em muitos aspetos, uma conquista. Falar de sofrimento psicológico deixou de ser necessariamente um tabu, e milhões de pessoas encontram hoje formas de apoio que anteriormente lhes estavam vedadas. Mas existe uma questão que os congressos dedicados à saúde mental não podem evitar: será que estamos a compreender melhor o sofrimento humano ou estamos simplesmente a aprender a classificá-lo melhor? A distinção é importante. Uma pessoa não é apenas um conjunto de sintomas, comportamentos ou indicadores psicológicos. Há sofrimento que tem origem numa perturbação clínica e exige tratamento especializado; mas há também sofrimento relacionado com solidão, perda, fracasso, ausência de sentido, relações destruídas, trabalho sem propósito ou incapacidade de encontrar um lugar no mundo. Se tudo isto for interpretado exclusivamente através da linguagem da saúde, corremos o risco de transformar problemas humanos em problemas clínicos e de procurar tratamento para aquilo que talvez exija, antes de mais, sentido, relação e transformação da própria vida.

É aqui que a Nascendum considera particularmente importante o diálogo entre psicologia e filosofia. A psicologia pode ajudar-nos a compreender mecanismos, comportamentos e processos emocionais; pode desenvolver instrumentos de prevenção e tratamento e produzir conhecimento indispensável sobre o funcionamento humano. Mas existe uma pergunta que ela, sozinha, não pode resolver: o que é uma vida boa? Podemos medir ansiedade, depressão, satisfação, resiliência ou bem-estar, mas nenhuma escala nos diz, por si só, aquilo que devemos desejar. Uma pessoa pode sentir-se bem e, ainda assim, estar a viver de uma forma que a destrói; pode sentir desconforto e, ao mesmo tempo, estar a atravessar uma transformação necessária. Por isso, o debate sobre saúde mental não deveria ficar separado das questões sobre liberdade, responsabilidade, virtude, relações, trabalho e propósito. O bem-estar não pode ser reduzido à ausência de sofrimento — uma vida humana é mais do que um estado psicológico agradável.

Esta questão torna-se ainda mais urgente quando entram em cena as tecnologias digitais e a inteligência artificial, temas que o próprio congresso inclui entre as áreas de investigação. As tecnologias podem ajudar a detetar problemas, acompanhar pacientes, personalizar intervenções e ampliar o acesso a determinados serviços. Mas podem também alterar as condições que produzem sofrimento: podem intensificar isolamento, dependência, comparação social, dispersão da atenção e substituição de relações humanas por interações artificiais. Não basta perguntar se uma tecnologia melhora determinados indicadores de saúde mental; precisamos de perguntar que tipo de pessoa e que tipo de relações ela está a ajudar a formar. Se queremos realmente cuidar da saúde mental, talvez tenhamos de deixar de pensar apenas em como reparar pessoas que estão a sofrer e começar também a perguntar que ambientes, relações, formas de trabalho e conceções de vida estamos a criar que tornam tantas pessoas incapazes de viver bem.

E esta é, provavelmente, a pergunta que gostaríamos de levar para um congresso como o GCPMH: e se uma sociedade emocionalmente saudável não for apenas uma sociedade com melhores tratamentos, mas uma sociedade que produz melhores condições para a relação, o sentido e a participação? A saúde mental não deveria ser entendida apenas como um assunto privado, localizado dentro da mente de cada indivíduo. Somos seres relacionais; aquilo que somos depende também dos vínculos que estabelecemos, do trabalho que realizamos, das comunidades a que pertencemos e do horizonte de significado dentro do qual interpretamos a nossa existência. Se o ser humano é chamado a participar na construção de um mundo ainda em processo, então cuidar da vida interior não significa apenas eliminar aquilo que dói. Significa também recuperar a capacidade de criar relações, encontrar sentido, assumir responsabilidade e participar na construção de uma vida que valha a pena ser vivida.

Pensa num desconforto que sentes atualmente — cansaço, ansiedade, insatisfação. Achas que é sobretudo algo a tratar, ou pode ser um sinal de que algo na tua vida — uma relação, um trabalho, uma forma de viver — precisa de mudar? Como distingues as duas coisas?

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