A 17.ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17) realiza-se em Erevã, na Arménia, de 19 a 30 de outubro de 2026, reunindo governos e representantes de organizações internacionais, comunidades indígenas, sociedade civil e outros setores para avaliar o progresso mundial na proteção da biodiversidade. A conferência será particularmente importante por marcar a primeira revisão global da implementação do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado em 2022, que estabelece quatro grandes objetivos para 2050 e 23 metas para 2030.
A expectativa é acompanhada por um diagnóstico preocupante: o mundo não está atualmente no caminho necessário para cumprir as metas de biodiversidade para 2030. As recentes reuniões preparatórias, realizadas em Nairobi entre julho e agosto, permitiram avançar em áreas como a conservação marinha e costeira, as áreas protegidas e a gestão sustentável da vida selvagem, mas também evidenciaram a necessidade de acelerar significativamente a implementação. As recomendações que chegam à COP17 apontam para cinco prioridades: concluir as estratégias nacionais de biodiversidade, reforçar o financiamento e a cooperação técnica, promover uma abordagem transversal dos governos, assegurar a participação de povos indígenas, comunidades locais, mulheres e jovens, e melhorar os sistemas de monitorização e conhecimento.
O financiamento é uma das questões centrais da conferência. A União Europeia estima uma lacuna anual de cerca de 37 mil milhões de euros no financiamento da biodiversidade e defende uma maior mobilização de investimento privado, incluindo através de mecanismos como os créditos de natureza. Ao mesmo tempo, o Quadro Global de Biodiversidade estabelece como ambição mobilizar pelo menos 200 mil milhões de dólares por ano até 2030, provenientes de todas as fontes. A COP17 será, assim, mais do que uma nova ronda de negociações ambientais: será um teste à capacidade da comunidade internacional de transformar compromissos em resultados concretos.
Para acompanhar este tipo de cobertura internacional, veja, por exemplo, a informação disponibilizada pela Convenção sobre Diversidade Biológica, pelo Earth Negotiations Bulletin e pela Comissão Europeia.
Há algo de paradoxal na crescente linguagem financeira em torno da biodiversidade. A União Europeia identifica uma lacuna anual de 37 mil milhões de euros e procura mobilizar investimento privado através de mecanismos como os créditos de natureza. A necessidade de recursos é indiscutível; o problema começa quando aquilo que deveria ser uma ferramenta passa silenciosamente a determinar a nossa maneira de pensar. Se a natureza só ganha importância quando conseguimos atribuir-lhe um preço, não estaremos a confirmar precisamente a lógica que nos trouxe até à crise?
O diagnóstico apresentado em Erevã é sério e a urgência é legítima. Mas talvez seja necessário fazer uma pergunta anterior à própria política de conservação: que ideia de ser humano está por detrás da forma como falamos da natureza? Se o mundo é uma obra inacabada da qual participamos, a biodiversidade não é simplesmente um recurso que temos de preservar para garantir a nossa sobrevivência, nem um património exterior que as sociedades humanas administram à distância. É parte da própria obra na qual estamos implicados.
Esta distinção muda tudo. Um recurso gere-se: mede-se, contabiliza-se, aloca-se da forma mais eficiente possível. Uma obra da qual se participa exige outra coisa — não somos proprietários de um inventário de ativos naturais, nem gestores de um sistema que observamos de fora; somos participantes de algo que continua a ser escrito. E quem participa não pergunta apenas quanto pode extrair ou quanto custa conservar, mas que mundo está a ajudar a tornar possível.
É neste ponto que a COP17 pode ser mais do que uma conferência sobre metas, financiamento e mecanismos internacionais. Pode ser uma oportunidade para recuperar uma ideia mais exigente de responsabilidade: quem cria, responde. Se a liberdade humana significa participar ativamente na construção do mundo, então a responsabilidade ambiental não é uma restrição exterior a essa liberdade, mas uma consequência dela. Não se trata apenas de "salvar a natureza", como se nós estivéssemos de um lado e ela do outro. Trata-se de reconhecer que cada decisão económica, tecnológica e política continua a escrever a obra comum.
A questão decisiva para Erevã talvez não seja, portanto, apenas saber quanto dinheiro se conseguirá mobilizar para cumprir as metas de biodiversidade, mas que relação com o mundo queremos deixar como herança: a de quem administra um objeto que recebeu pronto, ou a de quem compreende que recebeu uma obra aberta — e, por isso mesmo, a responsabilidade de a continuar bem.

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