O Papa Leão XIV apelou no sábado, 22 de agosto, a uma nova coragem para enfrentar a pobreza e a desigualdade, durante a sua intervenção no 47.º Encontro pela Amizade entre os Povos, realizado em Rimini, no norte de Itália. Perante milhares de participantes, o pontífice defendeu a necessidade de lançar luz sobre as estruturas de poder que estão na origem da pobreza, da desigualdade, das guerras e das catástrofes ambientais. O discurso colocou assim a questão social num horizonte mais amplo, recusando compreender a pobreza apenas como resultado de situações individuais e relacionando-a com as estruturas económicas, políticas e culturais que organizam a sociedade.
Leão XIV pediu aos participantes que fossem "pioneiros corajosos", capazes de abrir novos caminhos perante problemas que parecem demasiado grandes para serem enfrentados individualmente. O Papa criticou também um desenvolvimento tecnológico que se torna "invasivo e destrutivo", defendendo que a inovação não pode ser avaliada apenas pela sua capacidade de produzir crescimento ou eficiência. A advertência ganha particular relevância num momento em que a inteligência artificial, a automação e outras tecnologias estão a transformar rapidamente o trabalho, a economia e as relações sociais. Para o pontífice, o progresso tecnológico precisa de ser acompanhado por uma responsabilidade capaz de distinguir entre aquilo que é tecnicamente possível e aquilo que contribui efetivamente para o bem humano.
O discurso esteve igualmente marcado por um apelo à esperança. Em vez de ceder ao cansaço e ao desespero provocados pela dimensão das crises contemporâneas, Leão XIV pediu que surjam pessoas capazes de reacender "sonhos e visões". A transformação social, na perspetiva apresentada pelo Papa, não depende apenas de reformas institucionais, mas também da existência de pessoas dispostas a mudar a sua própria forma de viver e a tornar credível a mudança que reclamam para os outros — aproximando a transformação das estruturas da transformação pessoal, sem separar completamente responsabilidade individual e responsabilidade coletiva.
A intervenção de Leão XIV surge num contexto em que as desigualdades económicas, os conflitos armados, as crises ambientais e a transformação tecnológica se cruzam cada vez mais. Ao colocar estes fenómenos sob uma mesma reflexão, o Papa procurou deslocar o debate da simples distribuição de riqueza para uma questão mais profunda sobre que tipo de desenvolvimento e de sociedade está a ser construído. O desafio lançado em Rimini não foi apenas o de combater os efeitos da pobreza, mas o de identificar e transformar as estruturas que permitem que ela persista.
Para acompanhar este tipo de cobertura internacional, veja, por exemplo, a informação disponibilizada pelo Vatican News e pelo Meeting per l'Amicizia fra i Popoli.
O discurso de Leão XIV acerta num ponto essencial ao recusar a ideia de que a pobreza e a desigualdade possam ser explicadas exclusivamente pelas escolhas individuais. Existem estruturas que condicionam as oportunidades, distribuem de forma desigual os recursos e concentram poder. Ignorar essa dimensão seria transformar uma questão social numa questão de mérito individual. Mas existe também um perigo no sentido inverso: explicar a desigualdade apenas através das estruturas pode retirar à pessoa a responsabilidade pela realidade que ajuda a construir. Uma sociedade não é uma entidade abstrata que existe independentemente das pessoas. É feita de decisões, relações, instituições, empresas, hábitos e escolhas concretas. As estruturas são criadas por pessoas e, por isso, podem ser transformadas por pessoas. É precisamente aqui que a ideia de "pioneiros corajosos" ganha importância: não basta denunciar estruturas injustas; é necessário que existam pessoas capazes de viver de outra maneira e de começar a construir alternativas.
Esta questão aproxima-se diretamente daquilo que a Nascendum entende por cocriação. Se o mundo é uma realidade em processo, não somos apenas habitantes de uma estrutura que nos foi entregue. Participamos na sua transformação. Isto significa que não podemos olhar para a economia, para a tecnologia ou para as instituições como realidades exteriores pelas quais ninguém é verdadeiramente responsável. Cada empresa criada, cada tecnologia desenvolvida, cada decisão de investimento, cada modelo de trabalho e cada política pública acrescenta alguma coisa ao mundo. Criar é sempre também responder pelas consequências daquilo que se cria. Por isso, combater a desigualdade não deveria significar apenas redistribuir aquilo que existe. Deveria significar também perguntar que formas de trabalho, de propriedade, de inovação e de organização social estamos a criar e que possibilidades de vida elas oferecem às pessoas.
A advertência de Leão XIV sobre a tecnologia torna esta questão particularmente urgente. É relativamente fácil perguntar se uma tecnologia funciona; é mais difícil perguntar para que serve, quem beneficia dela, quem suporta os seus custos e que tipo de ser humano ela incentiva a formar. Uma inteligência artificial que aumenta a produtividade pode ser apresentada como progresso. Mas progresso para quem? Se aumentar a eficiência ao mesmo tempo que reduz a autonomia, fragiliza relações, concentra poder ou transforma trabalhadores em meros recursos substituíveis, poderemos continuar a chamar-lhe progresso sem interrogar o significado dessa palavra? A capacidade de criar não é, por si mesma, um critério suficiente para decidir o que merece ser criado. Precisamos de critérios humanos anteriores à própria tecnologia: dignidade, liberdade, relação, responsabilidade e sentido.
É por isso que talvez a parte mais importante do discurso do Papa não esteja na denúncia da desigualdade, mas no apelo a "pioneiros". A palavra contém uma ideia que muitas vezes desaparece do debate social: a mudança não começa necessariamente com uma grande reforma do sistema; pode começar com pessoas que decidem criar algo diferente. Não basta esperar que as estruturas mudem para então mudarmos nós próprios — as novas estruturas têm de ser antecipadas por novas formas de viver, trabalhar, produzir e relacionar-nos. Se o mundo está inacabado, a desigualdade não é apenas uma realidade que devemos combater; é também uma realidade que podemos ajudar a transformar. A pergunta decisiva não é somente "como distribuímos melhor aquilo que temos?", mas "que mundo estamos a criar quando decidimos aquilo que fazemos com aquilo que temos?" E talvez seja aí que a crítica cristã da desigualdade encontre a sua força mais profunda: não apenas em pedir uma sociedade mais justa, mas em convocar pessoas capazes de começar a construí-la.

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