A Metaphysical Society of America realizou, entre 19 e 21 de março de 2026, na Universidade de Yale, em New Haven, a sua 76.ª reunião anual, dedicada ao tema "Metaphysics and the Authority of Intelligence". Co-organizado pelo Departamento de Filosofia de Yale, o encontro reuniu investigadores de diferentes tradições filosóficas em torno de uma questão que durante grande parte do século XX perdeu centralidade: pode a inteligência humana ter autoridade para conhecer a realidade enquanto tal? A escolha do tema foi apresentada pela Sociedade como resposta ao interesse renovado pela metafísica sistemática enquanto filosofia primeira.
O programa mostrou que o debate estava longe de se limitar à metafísica entendida como disciplina tradicional. A sessão inaugural perguntou se estamos perante um "regresso da metaphysica specialis", enquanto outras sessões exploraram a metafísica medieval e moderna, a natureza do conhecimento, a relação entre inteligência e arte, o pensamento de Platão e Aristóteles e as conceções kantianas e hegelianas da relação entre ser e pensamento. Entre os participantes estiveram investigadores como Paul Franks, da Universidade de Yale, que proferiu a conferência principal, e os oradores plenários Sebastian Rödl, da Universidade de Leipzig, e Stephen Houlgate, da Universidade de Warwick, além de nomes como Lloyd Gerson, Günter Zöller, Michael Baur, Owen Goldin e Tyler Tritten, entre dezenas de outros investigadores.
Um dos conceitos que atravessou o encontro foi o de inteligência no sentido noético, recuperando a tradição grega de nous e distinguindo-a da inteligência entendida apenas como capacidade de cálculo ou resolução de problemas. A chamada para comunicações perguntava de que modo a inteligência metafisicamente orientada pode revelar a natureza e os limites do pensamento em diferentes domínios do conhecimento — ciência, arte, religião, história e filosofia moral e política. Uma das ideias centrais era a possibilidade de compreender conhecimento e ser como momentos inseparáveis: conhecer não seria simplesmente construir representações sobre uma realidade exterior, mas estabelecer uma relação com aquilo que é.
Essa preocupação atravessou também temas particularmente contemporâneos: uma comunicação sobre medição quântica e a unidade participativa entre conhecimento e ser, outra sobre metafísica e conhecimento científico e, já na sessão dedicada à metafísica do nosso tempo, uma intervenção intitulada "The Authority of Intelligence in the Age of Artificial Reproduction". O encontro terminou com a entrega da Founder's Medal a George Allan e com a intervenção presidencial de Phillip Stambovsky, intitulada "That Knowing Is of Being: On the Onto-Epistemological Authority of Noetic Intelligence".
Para acompanhar este tipo de cobertura internacional, veja, por exemplo, a informação disponibilizada pela Metaphysical Society of America e pelo Departamento de Filosofia de Yale.
O regresso da metafísica é uma notícia importante porque revela que a inteligência humana ainda não desistiu de uma das suas perguntas mais antigas: o que é a realidade? Durante décadas, tornou-se comum suspeitar das grandes construções metafísicas — talvez a realidade fosse demasiado complexa para ser compreendida como um todo, talvez a verdade dependesse sempre de uma linguagem, de uma cultura ou de uma perspetiva, talvez a ciência pudesse ir respondendo às nossas perguntas sem necessidade de uma investigação sobre o ser. Mas o desenvolvimento do conhecimento não eliminou essas perguntas — em certo sentido, tornou-as mais difíceis. Hoje conseguimos observar o universo a escalas inimagináveis, manipular a matéria, produzir sistemas artificiais capazes de gerar linguagem e transformar dados em previsões. Sabemos fazer mais coisas do que nunca, mas isso não significa que saibamos melhor o que estamos a fazer. É precisamente aqui que a metafísica recupera a sua importância.
O próprio conceito de "autoridade da inteligência" merece ser interrogado. Existe uma diferença fundamental entre inteligência e informação, entre cálculo e compreensão, entre capacidade de prever e capacidade de conhecer. Um sistema pode processar quantidades extraordinárias de informação sem que isso resolva a questão do significado, pode estabelecer relações entre acontecimentos sem saber o que esses acontecimentos são. E o mesmo problema pode aplicar-se ao próprio ser humano: a nossa inteligência pode conhecer muito e, ainda assim, interpretar mal aquilo que conhece. A autoridade da inteligência não pode ser confundida com a autoridade do intelecto sobre tudo o que existe. Se a inteligência é capaz de conhecer a realidade, precisa também de reconhecer os seus próprios limites.
É aqui que a Nascendum acrescenta uma questão talvez ainda mais importante: conhecer é também participar. Se a criação é uma realidade que se desdobra, o ato de conhecer não deveria ser entendido apenas como acumulação de representações corretas sobre um mundo exterior — é entrar numa relação com aquilo que existe, deixar que a realidade nos diga alguma coisa e, a partir daí, responder. Esta conceção torna a inteligência inseparável da responsabilidade: quanto mais conhecemos, maior é a nossa capacidade de agir, e quanto maior essa capacidade, maior a responsabilidade pelas consequências daquilo que fazemos. Uma inteligência verdadeiramente humana precisa de discernir quais são os problemas que vale a pena resolver, os fins que vale a pena perseguir, e que tipo de realidade queremos ajudar a construir.
O debate de Yale torna-se ainda mais relevante diante da inteligência artificial. Se máquinas conseguem produzir textos, imagens, hipóteses e decisões cada vez mais sofisticadas, a questão já não é apenas quão inteligentes são as máquinas — é o que entendemos por inteligência. Se inteligência significar apenas capacidade de processar informação e produzir resultados, a diferença entre inteligência humana e artificial será sobretudo quantitativa. Mas se significar nous — a capacidade de apreender a realidade, procurar a verdade, compreender o sentido e orientar a ação — estamos perante uma questão completamente diferente. Talvez o verdadeiro regresso da metafísica não seja um regresso ao passado, mas a necessidade de descobrir novamente o que significa conhecer num mundo em que já não somos os únicos capazes de produzir respostas inteligentes.
E talvez esta seja a pergunta decisiva que fica depois de Yale: se a inteligência nos dá poder para transformar o mundo, quem ou o que deve orientar essa inteligência? Não basta recuperar a metafísica para voltar a falar de realidade — é preciso recuperar também uma conceção de pessoa capaz de responder perante aquilo que conhece. Conhecer a realidade não nos torna automaticamente sábios. A inteligência pode ampliar a nossa liberdade, mas só o discernimento pode orientar essa liberdade; o conhecimento pode aumentar o nosso poder, mas só a responsabilidade pode dizer-nos como usá-lo. O verdadeiro desafio não é apenas saber se podemos conhecer mais. É saber se aquilo que conhecemos nos torna capazes de criar melhor.

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