A European Society for Philosophy of Religion (ESPR) realiza, entre 10 e 12 de setembro de 2026, em Lovaina, na Bélgica, a sua 25.ª conferência, dedicada ao tema "The Revival of Metaphysics in the Philosophy of Religion: New Universalisms, Catholicities, and their Opposites". Organizado em colaboração com a Faculdade de Teologia e Ciências da Religião da KU Leuven, o encontro reunirá investigadores de diferentes tradições da filosofia da religião para discutir uma questão que durante décadas pareceu ter perdido centralidade: estará a metafísica a regressar ao pensamento filosófico contemporâneo?
A questão não é meramente académica. A metafísica — a investigação sobre a realidade enquanto tal, os seus fundamentos e aquilo que pode ser considerado último ou fundamental — foi alvo de fortes críticas ao longo do século XX, tanto por parte do positivismo lógico como de diversas correntes pós-modernas. O congresso parte, contudo, da constatação de que a metafísica parece estar novamente presente tanto na tradição analítica como nas correntes continentais, incluindo a fenomenologia e o pensamento crítico. Os participantes procurarão, entre outras questões, perceber que formas assume esta nova metafísica, o que explica o seu reaparecimento e se a filosofia da religião pode realmente prescindir de questões metafísicas.
Um dos aspetos centrais do encontro será precisamente a relação entre filosofia e teologia. Um regresso à metafísica obriga a reconsiderar não apenas algumas tradições filosóficas e teológicas do passado, mas também a possibilidade de procurar fundamentos comuns entre diferentes perspetivas religiosas e filosóficas. O programa coloca, neste contexto, questões sobre novos universalismos e sobre a possibilidade de uma "catolicidade" que ultrapasse perspetivas particularistas. Mas os próprios organizadores introduzem uma cautela importante: a procura de fundamentos comuns pode também reproduzir formas de domínio intelectual, universalismo excessivo ou aquilo que identificam como logocentrismo.
O congresso chega, assim, num momento em que antigas perguntas voltam a encontrar espaço num pensamento contemporâneo frequentemente marcado pela especialização e pelo relativismo: existe uma realidade para além das nossas interpretações? Podemos falar de verdade para além das perspetivas individuais? Existem fundamentos universais para a ética? E pode a religião contribuir para essa procura sem transformar a sua própria visão numa forma de poder? A conferência de Lovaina não deverá produzir respostas definitivas, mas coloca novamente no centro da filosofia da religião uma questão que parecia ter sido afastada: talvez não seja possível compreender plenamente a pessoa, a liberdade, a moralidade ou a religião sem voltar a perguntar o que é, afinal, a realidade em que vivemos.
Para acompanhar este tipo de cobertura internacional, veja, por exemplo, a informação disponibilizada pela European Society for Philosophy of Religion e pela Faculdade de Teologia e Ciências da Religião da KU Leuven.
O regresso da metafísica é mais do que uma questão para especialistas. Durante boa parte da modernidade tardia, aprendemos a desconfiar das grandes perguntas: verdade, realidade, sentido, transcendência, fundamento. Quando não conseguimos chegar a um consenso, tornou-se tentador concluir que talvez não exista verdade comum — apenas perspetivas diferentes. Esta atitude teve o mérito de nos tornar mais conscientes dos limites do nosso conhecimento e dos perigos de transformar uma perspetiva particular numa verdade absoluta. Mas pode também ter produzido um efeito inesperado: se todas as perspetivas são apenas perspetivas, em nome de quê podemos dizer que uma vida é mais justa, uma decisão é mais humana ou uma sociedade é melhor do que outra? A Nascendum vê, por isso, com interesse o regresso da metafísica. Não porque devamos simplesmente recuperar as certezas do passado, mas porque uma cultura que deixou de perguntar pelo fundamento corre o risco de continuar a construir sem saber verdadeiramente sobre quê.
Há, contudo, um perigo no próprio regresso da metafísica: procurar fundamentos universais não deve significar possuir o monopólio da verdade. O programa do congresso reconhece esta tensão ao perguntar se o novo universalismo poderá transformar-se novamente num discurso de domínio. É uma questão decisiva. A verdade, se existe, não deveria ser utilizada como instrumento para reduzir o outro ao silêncio. Uma metafísica verdadeiramente aberta teria de fazer o contrário: reconhecer que a realidade é maior do que qualquer sistema que pretendamos construir para a explicar. Para a Nascendum, isto é particularmente importante porque a pessoa não pode ser reduzida a uma definição, uma função ou uma identidade fechada. Procurar a verdade não é conquistar a realidade; é aprender a deixar-se interpelar por ela. A humildade intelectual não exige abandonar a verdade — exige reconhecer que a nossa relação com ela permanece sempre inacabada.
É talvez aqui que o debate sobre metafísica encontra uma das questões fundamentais da Nascendum: que tipo de mundo conseguimos construir quando já não acreditamos que exista nada que devamos procurar, receber ou descobrir? Se a realidade for apenas aquilo que cada indivíduo ou cada sociedade decide que ela é, a liberdade pode transformar-se facilmente em arbitrariedade. Mas se existe uma realidade que nos precede, então a liberdade ganha uma dimensão diferente: não somos apenas livres para inventar o mundo; somos livres para participar responsavelmente numa realidade que recebemos e que podemos transformar. É esta passagem — da liberdade como mera escolha para a liberdade como participação — que torna o regresso da metafísica particularmente relevante. Talvez voltar a perguntar pelo fundamento da realidade não seja regressar ao passado. Talvez seja uma condição para podermos voltar a falar seriamente de verdade, responsabilidade, dignidade, propósito e sentido.

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