Não fomos criados para obedecer a um mundo pronto, mas para cocriar um mundo inacabado.
Há uma ideia que está no princípio de tudo o que fazemos na Nascendum: a criação não é uma obra acabada que nos foi entregue para simplesmente habitar. É uma realidade que se desdobra.
Acreditamos que existe algo profundamente significativo no próprio modo como Deus cria. A criação não é apenas um acontecimento situado num passado remoto; é um processo. Deus cria uma realidade capaz de receber novidade, de gerar possibilidades, de se transformar e de contar com a participação das próprias criaturas. O mundo não é inacabado porque Deus tenha deixado alguma coisa por concluir. É inacabado porque foi criado com possibilidade.
Esta distinção é fundamental para nós. Quando dizemos que o mundo está inacabado, não estamos a dizer que a criação é imperfeita ou que cabe ao ser humano corrigir aquilo que Deus não terminou. Dizemos que a criação foi concebida como uma realidade aberta, capaz de se desdobrar no tempo e de acolher a liberdade das criaturas. É nesse espaço de possibilidade que aparece a liberdade humana.
Quem cria, responde.
A liberdade de criar não é uma licença para fazer tudo aquilo que podemos fazer. É a possibilidade de participar conscientemente numa realidade que recebemos e pela qual nos tornamos responsáveis.
Não porque o ser humano seja um segundo criador colocado ao lado de Deus, nem porque possa ocupar o lugar do Criador. Cocriação significa que a própria realidade criada inclui criaturas capazes de participar nela, de a transformar e de lhe dar novas formas. A nossa capacidade de criar não é uma rutura com a criação divina; é uma das possibilidades que a criação contém.
Recebemos e transformamos. Herdamos e continuamos. Encontramos uma realidade que não fizemos e somos convidados a acrescentar-lhe alguma coisa.
Mas uma liberdade capaz de criar é necessariamente uma liberdade responsável. Aquilo que fazemos altera alguma coisa. Cada decisão, cada obra, cada relação e cada instituição deixa um mundo diferente daquele que encontrou.
Não acreditamos que seja possível compreender verdadeiramente o ser humano separando aquilo que pensa daquilo em que acredita, aquilo que faz daquilo que é, ou aquilo que constrói daquilo que procura interiormente. Filosofia, teologia, trabalho, psicologia, tecnologia e vida interior podem parecer territórios diferentes, mas encontram-se numa mesma casa porque interrogam, cada um à sua maneira, a capacidade humana de participar na realidade.
Procura as perguntas que estão na origem: Deus, a realidade, a verdade, a pessoa, a liberdade, a criação e o sentido. Procuramos os fundamentos porque aquilo que pensamos sobre a realidade determina, em grande medida, a forma como nela vivemos.
Parte da convicção de que criar também é uma forma de trabalhar. Empreender, gerir, liderar, inovar e construir organizações são maneiras concretas de transformar possibilidades em realidade — mais do que uma atividade económica, uma forma de participação, serviço, expressão e realização.
Olha para o lugar onde essas possibilidades encontram a pessoa. Porque nenhuma transformação exterior dispensa a transformação interior. Para criar bem, precisamos de aprender a conhecer-nos, a escolher, a relacionar-nos, a perseverar e a responder pelo que fazemos.
São territórios diferentes, mas pertencem à mesma casa.
A cosmovisão da Nascendum é profundamente informada pela tradição cristã, particularmente pela teologia da criação e pela visão cristã da pessoa, da liberdade, da responsabilidade e da relação com Deus e com os outros. Mas inspiração não é filiação.
A Nascendum não é uma igreja, uma comunidade religiosa ou uma ordem espiritual. Não pertence a nenhuma denominação, congregação ou instituição religiosa, nem representa qualquer autoridade eclesial. A nossa relação com o cristianismo é uma relação de pensamento, de procura e de inspiração — estudamo-la, discutimo-la e desenvolvemo-la sem que isso implique uma pertença institucional.
A nossa independência é também política. A Nascendum não pertence a nenhum partido, movimento ou corrente política e não está subordinada a qualquer agenda partidária ou ideológica. Essa independência não significa ausência de convicções — significa que queremos conservar a liberdade para pensar, questionar e dialogar sem que a nossa identidade seja determinada por uma filiação institucional.
Queremos poder conversar com quem acredita e com quem não acredita, com diferentes tradições religiosas e filosóficas, com diferentes posições políticas e culturais.
Não queremos tratar as ideias como objetos acabados. Uma ideia importante não serve apenas para oferecer uma resposta; deve aumentar a nossa capacidade de fazer perguntas. Deve desafiar pressupostos, revelar possibilidades, aproximar aquilo que parecia separado e obrigar-nos a olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer.
Por isso, procuramos desenvolver pensamento que não fique confinado ao mundo académico nem se dissolva em opiniões passageiras. Queremos ideias capazes de atravessar a vida: que possam entrar numa decisão, numa profissão, numa relação, numa empresa, numa comunidade ou numa escolha pessoal.
É também por isso que a Nascendum não procura simplesmente acompanhar o fluxo de informação. No blogue de Ideias e no Observatório, parte dos acontecimentos e das ideias do presente para perguntar o que eles revelam sobre a pessoa, a sociedade e o mundo que estamos a construir. Na sua carta, procura levar uma ideia a sério até ao fim, partilhando pensamento enquanto ele próprio se constrói.
A nossa capacidade de fazer coisas cresceu mais depressa do que a nossa capacidade de perguntar se devemos fazê-las.
Vivemos num tempo de extraordinária capacidade criativa. Podemos transformar a natureza, desenvolver inteligência artificial, alterar organismos, reorganizar o trabalho, construir empresas globais e comunicar instantaneamente através de fronteiras. É por isso que a Nascendum se interessa pela relação entre criação e responsabilidade. A criatividade sem responsabilidade pode tornar-se destruição. A liberdade sem sentido pode transformar-se em arbitrariedade.
Não queremos apenas pessoas mais competentes para transformar o mundo. Queremos pessoas capazes de discernir que mundo vale a pena transformar.
A Nascendum não pretende apresentar uma visão definitiva ou fechada do mundo. Isso seria contraditório com aquilo em que acreditamos. Se a criação se desdobra, também o nosso pensamento está em movimento. Há perguntas que atravessam gerações e que não perdem importância por ainda não terem uma resposta definitiva.
Queremos, por isso, construir uma comunidade de leitores e autores que não se limite a consumir ideias, mas que participe na sua construção, discussão e concretização.
Uma comunidade que pense sobre o mundo porque quer transformá-lo.Que crie porque sabe que terá de responder pelo que cria.Que reconheça que a liberdade não é apenas poder escolher, mas poder contribuir para aquilo que ainda não existe.
Nascendum significa aquilo que está a nascer. É esse o nosso ponto de partida.
Acreditamos numa criação que se desdobra, numa liberdade que participa e numa responsabilidade que acompanha aquilo que criamos.
Acreditamos que pensar é uma forma de participar.
Acreditamos que criar é uma forma de responder.
Não fomos criados para obedecer a um mundo pronto.
Fomos criados para participar numa criação que continua.
Por trás de Nascendum não há uma máquina, nem uma operação anónima. Há pessoas reais que escrevem, desenham, constroem e respondem por aquilo que publicamos — e que, por escolha, mantêm a atenção na ideia, não em si próprias.