Uma investigação internacional sobre inteligência emocional está a chamar a atenção para um fenómeno que os investigadores descrevem como uma "recessão emocional": uma deterioração prolongada das capacidades emocionais associadas ao bem-estar, às relações e à resiliência. Os dados mais recentes analisados, relativos ao período de 2019 a 2024 e envolvendo cerca de 28 mil adultos de 166 países, apontam para uma diminuição global de 5,79% nos resultados de inteligência emocional, com descidas estatisticamente significativas nas oito competências avaliadas.
A tendência prolonga um fenómeno já identificado pelo "State of the Heart", estudo internacional desenvolvido pela organização Six Seconds. Na edição de 2024, os dados mostravam que a inteligência emocional global tinha diminuído durante quatro anos consecutivos, entre 2019 e 2023, enquanto o bem-estar apresentava uma descida acumulada de 5,3%. O relatório caracterizou o cenário como uma "recessão emocional", marcada por baixo bem-estar e níveis elevados de burnout. Entre as competências analisadas encontram-se a capacidade de reconhecer e compreender emoções, gerir reações, manter o otimismo, desenvolver empatia, encontrar motivação e orientar a ação por objetivos significativos.
Os resultados mais recentes sugerem que a tendência não se limita à relação da pessoa consigo própria. A investigação encontrou também reduções nos indicadores associados às relações, qualidade de vida, bem-estar e eficácia, reforçando a hipótese de que o enfraquecimento das competências emocionais pode ter consequências para além da esfera individual. O fenómeno é particularmente relevante num contexto marcado por burnout, ansiedade, transformações no trabalho e crescente instabilidade social. Para os investigadores, contudo, o diagnóstico não deve ser interpretado como uma sentença inevitável: as competências emocionais são mensuráveis e desenvolvíveis, e o facto de existirem grupos ou competências que apresentam recuperação indica que a tendência pode ser contrariada.
Para acompanhar este tipo de cobertura internacional, veja, por exemplo, a informação disponibilizada pela Six Seconds e pelo relatório State of the Heart.
A expressão "recessão emocional" é poderosa porque revela uma inversão silenciosa: podemos estar a aumentar extraordinariamente a nossa capacidade de produzir, comunicar e processar informação enquanto diminuímos a nossa capacidade de estar verdadeiramente uns com os outros. Os números são importantes, mas não deveriam levar-nos a tratar as emoções como mais uma competência que precisamos de otimizar para sermos pessoas mais eficientes. Se a inteligência emocional for reduzida a uma ferramenta para melhorar desempenho, liderança ou produtividade, corremos o risco de responder à crise com a mesma lógica que talvez esteja, em parte, a alimentá-la. Para a Nascendum, a vida interior não é um instrumento ao serviço da performance; é o espaço onde a pessoa aprende a reconhecer o que sente, a compreender o outro, a escolher responsavelmente e a participar na construção de um mundo comum.
É aqui que a ideia de cocriação ganha particular importância. Uma pessoa não existe isoladamente: tornamo-nos quem somos através das relações que estabelecemos, das responsabilidades que assumimos e do mundo que ajudamos a construir com os outros. Quando a capacidade de escutar, compreender, confiar, cooperar e cuidar se enfraquece, não perdemos apenas bem-estar individual — empobrecemos o próprio mundo que partilhamos. Uma "recessão emocional" pode ser entendida, neste sentido, como uma recessão da nossa capacidade de criar realidade em conjunto. Quanto menos capazes somos de relação, menos capazes somos de construir comunidades, instituições, famílias e organizações verdadeiramente humanas.
As oito competências que o estudo mede — reconhecer emoções, geri-las, manter o otimismo, desenvolver empatia, encontrar motivação, entre outras — não são, por acaso, também as competências de que depende qualquer obra feita em conjunto com outros. Um projeto comum, uma comunidade, uma família: nenhum se sustenta sem alguém capaz de escutar antes de responder, de confiar antes de exigir provas, de cuidar antes de calcular o retorno. Se estas capacidades estão a enfraquecer em simultâneo em 166 países, talvez o que está em recessão não seja apenas o bem-estar individual, mas a própria infraestrutura invisível de que a vida partilhada precisa para existir.
Por isso, a resposta não deveria consistir simplesmente em ensinar as pessoas a "gerir melhor as emoções". A questão é mais profunda: que tipo de pessoa queremos formar e que tipo de mundo queremos tornar possível? A Coleção III — A Vida Interior pode ser entendida precisamente a partir desta convicção: a transformação exterior não começa apenas com novas estruturas, tecnologias ou políticas, mas também com a transformação da pessoa que participa nelas. Recuperar a capacidade de relação é recuperar uma dimensão fundamental da nossa humanidade. Talvez a verdadeira resposta à "recessão emocional" não seja apenas aumentar o nosso bem-estar, mas voltar a aprender a viver uns com os outros — e a reconhecer que o mundo que construímos depende da qualidade das relações através das quais o construímos.

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