Nascendum
Dossiê

Solidão já afeta uma em cada seis pessoas no mundo, alerta a OMS

A solidão deixou de ser encarada apenas como uma experiência individual para entrar na agenda internacional da saúde pública. Segundo o relatório da Comissão da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre Conexão Social, publicado em junho de 2025, cerca de uma em cada seis pessoas no mundo — aproximadamente 16% da população — experiencia solidão. O fenómeno atravessa todas as regiões e grupos etários, mas afeta particularmente os jovens: cerca de 21% dos adolescentes e jovens adultos relatam sentir-se sós. Nos países de baixo rendimento, a prevalência chega a cerca de 24%, mais do dobro da registada nos países de rendimento elevado.

Uma mulher sentada sozinha num banco de parque, absorvida no telemóvel, enquanto ao fundo um grupo de amigos ri sentado à sombra de uma árvore
A poucos metros de distância, duas experiências completamente diferentes do mesmo lugar

A dimensão do problema vai muito além do desconforto emocional. A OMS considera a solidão e o isolamento social importantes determinantes sociais da saúde, associando-os a consequências para a saúde física e mental, a qualidade de vida e a longevidade. As estimativas reunidas pela Comissão apontam para cerca de 871 mil mortes por ano associadas à solidão — o equivalente a aproximadamente 100 mortes por hora. A solidão está relacionada com um maior risco de depressão e ansiedade e com problemas de saúde física, incluindo doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2. A OMS sublinha ainda que os efeitos se estendem à sociedade, afetando a educação, o emprego, a inovação e a resiliência económica.

O relatório distingue, contudo, solidão de isolamento social. A primeira é uma experiência subjetiva de desconexão: pode acontecer mesmo quando uma pessoa está rodeada de outras, sempre que existe uma diferença entre as relações que deseja e aquelas que efetivamente possui. O isolamento social refere-se, por outro lado, à ausência ou insuficiência objetiva de relações e contactos sociais. A OMS defende que a resposta deve ultrapassar a intervenção individual, identificando soluções que passam por políticas públicas, iniciativas comunitárias, campanhas de sensibilização, investigação e intervenções destinadas a fortalecer relações — tratando a "saúde social" com uma importância comparável à atribuída à saúde física e mental.

Para acompanhar este tipo de cobertura internacional, veja, por exemplo, a informação disponibilizada pela Organização Mundial da Saúde e pela sua equipa dedicada à solidão e ao isolamento social.

O olhar Nascendum
Por Equipa Nascendum

Os números da OMS são suficientemente impressionantes para justificar uma resposta política e social. Mas existe o risco de, ao transformarmos a solidão numa questão de saúde pública, começarmos a tratá-la apenas como mais um problema que precisa de ser gerido, medido e corrigido. A solidão não é simplesmente uma anomalia que devemos eliminar para que as pessoas regressem ao funcionamento normal. Ela revela alguma coisa sobre a condição humana: precisamos dos outros não apenas para sobreviver, mas para nos tornarmos quem somos. A pessoa constrói-se na relação. Aprende a falar porque alguém lhe fala, reconhece-se porque alguém a reconhece, descobre as próprias capacidades porque alguém acredita nelas. Por isso, uma sociedade em que uma em cada seis pessoas se sente profundamente só não enfrenta apenas uma crise de bem-estar; enfrenta uma crise na própria capacidade de relação.

É aqui que a Nascendum pode introduzir uma questão que ultrapassa o diagnóstico da OMS. E se a solidão for também o resultado de uma cultura que se tornou excessivamente individualista? Construímos sistemas que valorizam autonomia, mobilidade, eficiência, desempenho e liberdade de escolha, mas nem sempre construímos as condições para a pertença, a reciprocidade e o compromisso. Podemos mudar de cidade, emprego, grupo ou relação com uma facilidade inédita; podemos comunicar instantaneamente com qualquer pessoa; podemos personalizar quase todos os aspetos da nossa experiência. Mas uma relação significativa exige precisamente aquilo que a lógica da otimização tende a evitar: tempo, disponibilidade, vulnerabilidade, fidelidade e a capacidade de permanecer quando seria mais fácil partir. Talvez o paradoxo da nossa época seja este: ganhámos extraordinárias possibilidades de conexão sem necessariamente desenvolver a capacidade de relação que lhes deveria dar sentido.

Por isso, a resposta à solidão não pode consistir apenas em criar mais contactos. Precisamos de reconstruir a cultura da relação. A visão da Nascendum parte da convicção de que o mundo não é apenas algo que habitamos: é algo que construímos em conjunto. E essa construção começa na forma como nos relacionamos. Uma comunidade verdadeiramente humana não é aquela em que ninguém está fisicamente sozinho, mas aquela em que as pessoas sabem que pertencem a algum lugar, que a sua presença importa e que podem contar com alguém quando a vida se torna difícil.

A solidão global deveria, portanto, ser entendida como um desafio à nossa própria capacidade de cocriação: quando perdemos a capacidade de escutar, confiar, cuidar e permanecer uns com os outros, não perdemos apenas relações — perdemos capacidade de construir mundo. Talvez a resposta mais profunda à solidão não seja ensinar as pessoas a estarem sempre acompanhadas, mas voltar a criar uma cultura em que ninguém precise de deixar de ser pessoa para poder pertencer.

Pensa em alguém que, hoje, estava fisicamente perto de outras pessoas mas ainda assim parecia distante — ou em ti próprio nessa situação. O que é que, concretamente, teria transformado essa proximidade física em verdadeira companhia? E és tu quem normalmente dá o primeiro passo para que isso aconteça, ou esperas que seja o outro a dá-lo?

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