Nascendum
Dossiê

Trabalho e bem-estar: estamos a trabalhar para viver ou apenas a viver para trabalhar?

23 de agosto de 2026 · Sociedade, Psicologia, Desenvolvimento Pessoal

Um novo conjunto de estudos está a revelar uma realidade preocupante no mundo do trabalho: ter um emprego não significa necessariamente estar bem no trabalho. O "State of the Global Workplace 2026", da Gallup, mostra que apenas 20% dos trabalhadores a nível mundial estavam envolvidos com o seu trabalho em 2025, uma descida pelo segundo ano consecutivo. Ao mesmo tempo, o bem-estar global dos trabalhadores melhorou ligeiramente, passando de 33% para 34% daqueles que se encontram numa situação de thriving, mas as emoções negativas continuam acima dos níveis anteriores à pandemia: 40% dos trabalhadores relataram stress significativo no dia anterior, 23% tristeza, 22% raiva e 22% solidão.

Do lado esquerdo, uma pessoa exausta e curvada, rodeada de engrenagens cinzentas e ecrãs de dados; do lado direito, um grupo diverso de pessoas a colaborar em luz dourada, sob as palavras Autonomia, Propósito, Apoio e Flourishing
Duas engrenagens diferentes para a mesma vida profissional — uma que consome, outra que faz florescer

Um estudo publicado em fevereiro de 2026 pela Gies College of Business da University of Illinois, com uma amostra representativa de 2.000 trabalhadores norte-americanos, chegou a uma conclusão igualmente expressiva: 61% dos trabalhadores encontram-se numa situação descrita pelos investigadores como "languishing" — isto é, têm dificuldades de envolvimento, motivação ou realização no trabalho — enquanto apenas 39% estão a florescer. Entre os trabalhadores nesta situação, 38% dizem sentir burnout muito frequentemente e 34% afirmam tencionar procurar outro emprego nos 12 meses seguintes. O estudo aponta, contudo, para uma conclusão importante: o bem-estar não depende apenas das características individuais dos trabalhadores, mas também das condições em que o trabalho é organizado.

É precisamente aqui que a investigação começa a afastar-se da ideia de que o bem-estar profissional pode ser resolvido exclusivamente através de programas de saúde mental, sessões de mindfulness ou benefícios adicionais. O estudo da Illinois identifica autonomia, apoio das equipas, desenho do trabalho e clima ético como fatores determinantes. Nas equipas caracterizadas simultaneamente por elevada autonomia e elevado apoio, 68% dos trabalhadores florescem; nos ambientes onde ambas as dimensões são reduzidas, apenas 10% florescem. A Organização Internacional do Trabalho chegou a uma conclusão convergente no seu relatório de 2026 sobre o ambiente psicossocial de trabalho, destacando fatores como carga de trabalho, clareza das funções, autonomia, organização do tempo e processos justos e transparentes como elementos fundamentais para a saúde e segurança dos trabalhadores.

Para acompanhar este tipo de cobertura internacional, veja, por exemplo, a informação disponibilizada pela Gallup, pela Gies College of Business e pela Organização Internacional do Trabalho.

O olhar Nascendum
Por Equipa Nascendum

Existe uma contradição no modo como falamos atualmente de bem-estar profissional. Nunca tivemos tanta linguagem, tantos programas e tantas ferramentas dedicadas ao wellbeing, mas continuamos a encontrar milhões de pessoas que trabalham sem se sentirem verdadeiramente realizadas. Talvez porque tenhamos cometido um erro de perspetiva: transformámos o bem-estar numa responsabilidade individual quando muitas das suas causas estão inscritas na própria estrutura do trabalho. Ensinamos as pessoas a gerir o stress, a dormir melhor, a respirar, a desligar notificações e a desenvolver resiliência — e tudo isso pode ter valor —, mas raramente começamos pela pergunta mais incómoda: que tipo de trabalho estamos a pedir às pessoas para fazer? Se o trabalho é permanentemente excessivo, se não existe autonomia, se as relações são frágeis e se aquilo que se pede a uma pessoa contradiz os seus valores, nenhuma aplicação de meditação resolverá inteiramente o problema.

A Nascendum parte de uma visão diferente do trabalho. Trabalhar não é apenas produzir alguma coisa em troca de uma remuneração; é uma forma de participar na construção do mundo. Cada profissão, quando exercida com consciência, coloca uma pessoa em relação com outras pessoas e com uma realidade que a transcende. O trabalho pode ser expressão de talento, serviço, responsabilidade e vocação — pode ser uma forma de cocriação. Mas para isso precisa de deixar espaço à pessoa que trabalha. A autonomia identificada pela investigação não é apenas uma variável estatística: é a possibilidade concreta de o trabalhador se reconhecer como autor e participante, e não apenas como peça de uma engrenagem. Do mesmo modo, o apoio das equipas não é um simples benefício organizacional; é o reconhecimento de que nenhum trabalho verdadeiramente humano se faz sozinho. Quando retiramos autonomia, relação e sentido ao trabalho, podemos continuar a produzir — mas corremos o risco de deixar de nos realizar através daquilo que fazemos.

Talvez seja por isso que a pergunta mais importante não seja "Como podemos tornar os trabalhadores mais felizes?", mas "Como podemos construir formas de trabalho que mereçam ser vividas?" A diferença é profunda. A primeira pergunta procura adaptar a pessoa ao sistema; a segunda obriga-nos a interrogar o próprio sistema. O desafio das organizações não deveria ser simplesmente evitar que as pessoas adoeçam, mas criar condições para que possam florescer, contribuir e reconhecer sentido naquilo que fazem. E isso implica repensar a relação entre produtividade e propósito, autonomia e responsabilidade, desempenho e dignidade.

Se o trabalho é uma das principais formas através das quais participamos na construção do mundo, então a qualidade desse trabalho não é uma questão secundária. Um mundo construído por pessoas permanentemente exaustas, desligadas e sem sentido dificilmente poderá ser um mundo verdadeiramente habitável.

No teu próprio trabalho, sentes que tens espaço para seres autor e não apenas executor — e sentes que podes contar com as pessoas à tua volta quando precisas? Se pudesses mudar uma única condição concreta do teu trabalho, sem mudar de emprego, qual escolherias, e o que achas que isso revela sobre aquilo que realmente te falta?

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