Havia um homem no café que repetia a mesma frase a cada três minutos, e não parecia dar-se conta. Falava do pai, internado havia duas semanas, e voltava sempre ao mesmo ponto: «eu não pedi isto». Não o dizia com raiva. Dizia-o como quem verifica uma conta antiga e a encontra certa.
A frase é verdadeira. Ninguém lhe tinha pedido autorização para nada, nem a ele nem a nenhum de nós. Não escolhemos os pais, o corpo, o país, o século, a doença que chega sem bater. Uma parte considerável da vida acontece por acumulação de decisões que nunca tomámos, tomadas por gente que também não sabia bem o que estava a decidir. Aquilo a que chamamos destino é, quase sempre, a soma das escolhas de terceiros a cair sobre nós em silêncio.
E, no entanto, a frase não servia para nada. Era exacta e inútil. Ele tinha o pai, tinha os dias, tinha os telefonemas a dar, e era isso que estava à sua frente todas as manhãs.
Guardei aquela cena porque me pareceu o retrato de um problema maior, e mais difícil de nomear do que a doença de um velho.
Chegamos sempre a meio
Há uma fantasia muito antiga sobre a vida em comum, e é a de que ela começa num momento inaugural em que todos os presentes assinam um acordo. Na realidade, entramos sempre numa casa já habitada, com a mesa posta por pessoas que morreram antes de nos conhecer, e passamos os anos seguintes a mudar móveis de sítio. Herdamos a língua, a rua, o hospital, a escola, as regras que ninguém redigiu e que todos cumprem. Depois fazemos coisas dentro disso.
Chamo a isto participação, e a palavra não tem nada de solene. Participar é o que já estamos a fazer enquanto discutimos se devemos participar. O funcionário que cumpre uma ordem que considera errada participa; o que se demite por causa dela participa de outra maneira. O cidadão que vota e o que se abstém produzem juntos o resultado. O silêncio numa reunião é uma forma de voto, e às vezes a mais decisiva. Não existe uma posição fora do jogo a partir da qual se possa avaliar o jogo, e o primeiro sinal de que alguém começou a pensar a sério sobre a sua responsabilidade é ter descoberto isso.
Ora, uma vez que a participação é inevitável, a licença deixa de ser a pergunta interessante. Ninguém nos ia dar licença para respirar o ar de uma casa que já estava lá. Quando alguém reclama não ter sido consultado, quase sempre diz a verdade e quase sempre chega tarde. A consulta que ele reclama nunca existiu e não vai existir. O que existe é o que ele faz a seguir, e esse é o único território onde a sua vontade tem peso.
Duas espécies de permissão
Convém distinguir duas coisas que andam juntas na cabeça de muita gente.
A primeira é a permissão de quem manda. O visto, a autorização, a benção da autoridade competente. Esta é a licença que se pede antes. Durante séculos, quem quisesse fazer algo relevante precisava dela, e a vida era organizada para que a obtivesse ou desistisse. Hoje a autorização prévia tornou-se, em muitas áreas, uma ficção administrativa: ninguém vai impedir que se abra um projecto, se publique um texto, se comece uma associação, se decida mudar de vida aos cinquenta. Há um vazio de comando que assusta mais do que liberta, e muita gente continua a esperar por um sinal que já ninguém tem competência para dar.
A segunda é a permissão de quem é afectado. Esta não se pede antes, porque ainda não há nada a que se possa referir. Pede-se depois, na forma de prestação de contas, e frequentemente é recusada. É a licença que ninguém consegue obter antecipadamente e que, ainda assim, é a única que conta.
Quem participa sem pedir licença renuncia à primeira e submete-se à segunda. Este é o ponto inteiro, e é aqui que a expressão se torna perigosa se for mal lida. Há uma versão dela que circula nos manuais de empreendedorismo e que diz o contrário: fazer primeiro, explicar depois, pedir desculpa se for preciso. Essa versão não é coragem, é impunidade com boa imprensa. O que ela contém de verdadeiro é a recusa da paralisia. O que contém de falso é a ideia de que a ausência de autorização prévia equivale à ausência de consequências.
Liberdade sem resposta é uma forma de infância prolongada. E há homens de sessenta anos que continuam a viver assim, convencidos de que a sua independência é uma virtude, quando é apenas a sorte de nunca terem sido chamados a responder por nada.
O lastro
Pensei muito numa imagem simples, e é a de um barco. Um barco sem lastro não é mais livre do que os outros; é apenas mais instável. Adorna com qualquer vento, e o vento, em vez de o levar, limita-se a brincar com ele. O lastro é o que lhe permite receber o vento sem se perder, e portanto o que transforma a força exterior em viagem. Quanto mais forte é o vento, mais lastro é preciso.
A responsabilidade funciona assim. Não é um travão posto à liberdade por uma instância exterior, nem uma penitência que se paga por ter ousado. É a condição para que a ousadia produza um percurso em vez de um solavanco. Quem responde pelo que faz pode ser corrigido, e quem pode ser corrigido aprende. Quem não responde por nada fica condenado a repetir-se, porque nunca recebe a informação que lhe permitiria mudar.
A palavra traz a coisa dentro. Responder, do latim respondere, é o acto de quem foi interpelado e aceita sê-lo. Não é o mesmo que explicar, nem o mesmo que justificar. Explicar é contar a história de dentro; justificar é procurar a absolvição. Responder é pôr-se do lado de lá da pergunta e ficar lá o tempo necessário. Quem responde aceita que a sua versão dos factos não é a última palavra sobre os factos, e essa aceitação é a coisa mais rara que existe num adulto.
Onde a assinatura se dissolve
O problema da nossa época, neste ponto, não é o excesso de poder individual. É a sua dissolução. Vivemos num mundo em que as coisas acontecem sem que ninguém tenha decidido, e em que essa ausência de autor é vivida como virtude.
A frase mais comum em qualquer instituição é «ninguém decidiu isto». Um procedimento herdado de três direcções anteriores. Uma prática que se instalou porque um dia deu jeito a alguém que já saiu. Uma decisão tomada em reunião por sete pessoas cansadas, nenhuma das quais a defenderia se fosse interrogada a sós. O resultado é real, tem consequências reais e não tem autor. É a forma contemporânea da irresponsabilidade, e é mais difícil de combater do que a antiga, porque não há ninguém a quem apontar o dedo nem a quem pedir contas.
Há um mecanismo psicológico simples por baixo disto, e não vale a pena romantizá-lo. Quando muitas pessoas fazem a mesma coisa, a responsabilidade de cada uma divide-se por todas e a culpa sentida aproxima-se de zero. Milésimos de autoria produzem milésimos de remorso. O que é curioso é que os efeitos não se dividem na mesma proporção: a ponte que cai, cai inteira. Só a autoria é divisível; a consequência nunca é.
Daí a tentação de não assinar. Assinar é o gesto mínimo e mais caro que existe: pôr o nome no fundo do documento. Quem assina perde a possibilidade de dizer que foi instrumento, que foi o sistema, que foi a conjuntura, que foi o que estava combinado. Perde também, note-se, uma forma subtil de poder, que é a de nunca ter estado realmente presente. E ganha uma coisa que não se compra: a de saber de que material é feita a sua própria vida.
Aquele que assinou
Aqui a figura de Jesus volta a ser útil, e de um modo que me parece mais exigente do que o habitual elogio da sua coragem.
Repare-se no que ele não faz. Não se apresenta como mensageiro neutro. Não diz «sou apenas um enviado, a responsabilidade é de quem me mandou». Quando um leproso lhe pede para ser limpo, a resposta é de uma simplicidade que assusta: «Eu quero; sê limpo.» Duas palavras na primeira pessoa, sem intermediação, sem invocação de instância superior. O milagre passa por uma vontade declarada, e essa vontade tem dono.
E repare-se no outro lado, que é o que raramente se cita. Uma mulher sírio-fenícia vem pedir-lhe a cura da filha e ele responde com uma frase dura sobre não dar o pão dos filhos aos cães. Ela não se cala; responde que também os cães comem as migalhas. E ele cede. Muda de posição, reconhece o argumento, faz o que ela pede. Um homem que se diz enviado do alto e que aceita ser corrigido por uma mulher estrangeira no meio da estrada é um caso de responsabilidade em estado puro. Quem participa sem pedir licença às autoridades constituídas submete-se, em contrapartida, à interpelação de quem aparece à beira do caminho.
É este o contrapeso que a figura de Jesus oferece a quem o lê como mestre e não como doutrina: nunca a autoridade serve para não responder. Serve, quando muito, para responder a mais gente.
O tamanho daquilo que se segura
Fica uma questão prática, e é a que costuma bloquear as pessoas de bem. Se a participação é inevitável e a responsabilidade é ilimitada, como se vive sem colapsar? A resposta que encontrei, e que me custou anos a aceitar, é que a responsabilidade não se mede pelo que nos preocupa, mas pelo que passou pelas nossas mãos.
Há uma forma de angústia que se confunde com consciência e que é apenas uma maneira elegante de não fazer nada. Sofrer pelo mundo inteiro dá muito trabalho e não assina nada. O contrapeso real exerce-se em unidades pequenas e verificáveis: o relatório que se assina sem acreditar nele, a frase que se diz numa reunião e que muda o ambiente, a mensagem que se deixa sem resposta durante três semanas, o dinheiro que se aceita de uma fonte que se preferiria não nomear. É aí, e não nos grandes princípios, que a assinatura se põe ou se deixa em branco.
E é por isso que a responsabilidade, exercida neste tamanho, produz uma espécie estranha de leveza. Não a leveza de quem não tem nada a ver com nada, mas a de quem sabe exactamente com o que tem a ver. O homem do café continuava com o pai doente, e continuaria. A diferença, no dia em que deixou de repetir a frase, foi pequena e decisiva: parou de esperar que alguém lhe pedisse licença para o que já estava a viver.
Ninguém nos pediu autorização para nada. É verdade, e continuará a ser. A pergunta que sobra, feita com o café a arrefecer e o dia a começar, é outra: depois de tudo o que não pedimos, o que é que estamos dispostos a assinar?
"O corpo sabe antes de a cabeça formular. Isto não é uma ideia poética; é uma consequência da arquitectura do sistema nervoso. Muita da informação que entra pelos olhos e pelos ouvidos é processada por circuitos rápidos que não passam pela linguagem, e que produzem respostas imediatas: aceleração do coração, contracção dos ombros, um aperto no estômago, a sensação de que o chão é menos firme. Quando a consciência chega, encontra o corpo já em movimento, e depois inventa uma explicação para o que se está a passar.
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