Participar sem se dissolver: o eu que cocria e o eu que se perde
25 de setembro de 2026 · 9 min de leitura · Filosofia
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A reunião era sobre o horário da sala comum e durou uma hora e quarenta minutos. Quando chegou a vez dela, Elisa ouviu-se a dizer que concordava com o que tinha sido proposto, e a sala seguiu para o ponto seguinte. Ninguém discutiu. Ficou tudo resolvido antes das dez.
No carro, com o motor a aquecer, tentou reconstruir o que pensava de facto sobre o assunto. Não conseguiu. Sabia o que a sala pensava, sabia o que convinha dizer para não criar atrito, sabia qual era a posição razoável — e a sua própria opinião era a única peça que não encontrava. Não era uma dúvida. Era uma ausência.
Há pessoas que passam anos neste estado sem lhe darem nome. Falam, decidem, opinam, votam, e no fim de cada dia não conseguem distinguir aquilo que escolheram daquilo que se limitaram a acompanhar. A vida corre e elas estão lá, presentes em tudo, em parte nenhuma de si mesmas.
Duas maneiras de faltar
Convém começar por dizer que este problema tem um contrário, e que o contrário costuma ser mais elogiado.
Há quem nunca se dissolva em nada. Cada compromisso é medido, cada cedência é contabilizada, cada relação é uma negociação em que se entra com o cuidado de quem pode perder. Estas pessoas são muitas vezes descritas como firmes, com caráter, com princípios definidos. E, no entanto, também elas faltam. Uma sala cheia de gente assim não produz nada, porque ninguém dá o primeiro passo sem garantia.
O que une os dois extremos é a ausência de um centro donde se possa dar. Quem se dissolve não tem de onde dar. Quem se defende não quer dar. Em ambos os casos, a sala fica sem ninguém dentro — num caso porque o sujeito se evaporou, no outro porque nunca chegou a entrar.
A cocriação, no sentido em que a Nascendum a entende, acontece num lugar estreito entre estas duas coisas. Exige um eu suficientemente constituído para responder pelo que faz, e suficientemente aberto para que o que faz não seja apenas a projeção de si próprio. É um equilíbrio instável, e ninguém o mantém por uma decisão tomada uma vez.
O eu como nó
Aqui vale a pena desfazer uma confusão. Quando se fala de um eu forte, a imaginação corre para a fortaleza: muros, autonomia, independência, a capacidade de não precisar de ninguém. Essa imagem é herdeira de uma época que fez do indivíduo o centro do mundo, e produziu pessoas admiráveis e profundamente sós.
Um eu capaz de cocriar tem outra constituição. É feito de tudo o que recebeu — a língua, os afetos, os livros, as feridas, as pessoas que o ensinaram a ver — e tem, ainda assim, um lugar onde as decisões se juntam. Esse lugar é o que permite assinar. Sem ele, há influências e há reações, mas não há autor.
Pense numa casa habitada por várias pessoas. Há ruído, discussão, portas que se abrem e fecham. O que distingue uma casa viva de um monte de gente a passar férias é que, na primeira, existe um lugar — a mesa, a cozinha, o telefone — onde as coisas acabam por se decidir e alguém responde por elas. A casa não é menos feita dos outros por ter esse lugar. É por ter esse lugar que os outros podem viver nela.
A tentação religiosa
Há uma linguagem espiritual que exalta a dissolução do eu, e que precisa de ser lida com cuidado. Fala-se de morrer para si, de desprendimento, de se tornar nada, de desaparecer para que outro cresça. Esta linguagem tem uma história nobre e uma eficácia real. Tem também um uso deturpado que produz estragos silenciosos.
O uso deturpado é este: uma pessoa que não quer decidir, que tem medo de se comprometer, que se sente aliviada por não ter de responder, apropria-se do vocabulário místico e passa a chamar humildade à sua ausência. «Eu sou nada», diz, e a frase tem um efeito imediato: ninguém lhe pode pedir contas, porque um nada não tem contas a prestar. «Não tenho vontade própria», acrescenta, e fica dispensada de todas as escolhas difíceis da casa.
As tradições sérias nunca disseram isto. Quando falam de morrer para si, falam de morrer para uma certa imagem de si que nos fecha aos outros. É um trabalho sobre o ego, e não sobre a pessoa. A confusão entre os dois produz o tipo humano mais difícil de ajudar: aquele que já não sofre por nada, não se irrita com nada, concorda com tudo, e por baixo dessa serenidade há uma evitação que ninguém consegue alcançar porque está revestida de virtude.
Há um critério para distinguir uma coisa da outra, e é simples de enunciar e difícil de aplicar: o desprendimento verdadeiro aumenta a capacidade de responder; o falso diminui-a. Quem se desprendeu de facto torna-se mais disponível para as decisões concretas, mais capaz de dizer sim e de dizer não, mais presente nos assuntos pequenos da vida comum. Quem apenas se evaporou fica mais leve e menos útil, e a leveza é sempre suspeita quando não aumenta a responsabilidade de ninguém.
Aquele que tinha vontade
A figura de Jesus oferece aqui uma lição que me parece das mais mal compreendidas.
Repare-se no que ele faz quando a multidão, depois de comer, decide fazê-lo rei. O evangelho diz que ele se retira sozinho para o monte. Não discute, não faz um discurso sobre a humildade, não explica à multidão que está a interpretá-lo mal. Simplesmente não está disponível para a definição que os outros lhe querem impor. Quem não tem um centro não consegue desaparecer assim; fica, agradece, aceita o cargo e depois passa a vida a tentar corresponder.
Repare-se, também, no episódio do deserto. As tentações são, todas elas, propostas de identidade: faz isto e serás reconhecido, faz aquilo e terás poder, atira-te daqui abaixo e todos verão quem és. Ele recusa as três. A recusa não vem de uma doutrina, vem de uma clareza sobre quem é que não precisa de ser provado.
E há o momento decisivo, no jardim, na véspera da morte. A frase que rezou é conhecida: não se faça a minha vontade, mas a tua. Vale a pena reparar no que ela pressupõe. Para entregar a própria vontade, é preciso tê-la. Ele não diz «não tenho vontade», nem «tanto me faz». Diz que tem uma vontade, que essa vontade é outra coisa daquilo que se vai passar, e que a entrega. Um homem sem vontade não poderia fazer esta oração; poderia apenas assistir aos acontecimentos.
É aqui que a lição se torna concreta para quem trabalha, cria, educa, cuida. Não se pode entregar aquilo que não se tem. Quem nunca formou uma opinião não pode abdicar dela. Quem nunca desejou nada não pode oferecer nada. A generosidade exige uma posse prévia daquilo que se dá, e é por isso que a maior parte das pessoas que se queixam de dar demasiado nunca deu nada que lhe custasse um centro.
Há ainda um pormenor que me acompanha há anos. Uma mulher estrangeira interpela-o à beira do caminho, pedindo a cura da filha, e ele responde com uma frase dura. Ela não se cala; responde com um argumento. E ele cede, e faz o que ela pede. Um homem que se diz enviado do alto, e que aceita ser corrigido por uma mulher que não pertencia ao seu povo, é um homem que tem um centro suficientemente firme para não precisar de ter sempre razão. A rigidez é a marca de quem duvida de si.
Como se sabe
Fica a pergunta prática, que é a única que interessa a quem lê. Como se sabe, no meio da vida concreta, se estamos a participar ou a desaparecer?
Há indícios que valem mais do que qualquer introspecção. O primeiro é a memória das próprias decisões. Se, ao rever os últimos meses, não conseguimos identificar três escolhas que tenham sido nossas contra a expectativa de alguém, provavelmente não temos estado presentes — temos sido acompanhados.
O segundo é o ressentimento. Quem se dissolve acumula uma irritação sem objeto, que aparece nas pequenas coisas: o tom com que se responde em casa, a impaciência com um assunto trivial, o cansaço que não tem causa identificável. O ressentimento é o que fica quando a vontade é engolida muitas vezes e não encontra forma de se dizer.
O terceiro é a capacidade de receber. Quem se perdeu pelos outros costuma ser incapaz de aceitar ajuda, porque aceitar implica reconhecer que se tem necessidades próprias. A generosidade que não sabe receber é uma forma de controlo, e das mais difíceis de desmascarar.
O quarto, e o mais exigente, é o teste da ausência. Se sair da sala durante um mês, o que acontece? Se a resposta for «nada muda», é sinal de que a sua presença já não estava a fazer nada. Se a resposta for «tudo para», é sinal de que nunca houve estrutura nenhuma, apenas uma pessoa a segurar tudo. Os dois extremos indicam o mesmo problema, visto de lados opostos.
A sala no dia seguinte
Elisa voltou à reunião na semana seguinte. Havia um ponto novo na ordem de trabalhos e, quando chegou a sua vez, disse que não concordava. Falou durante dois minutos, com a voz a tremer ligeiramente, e ficou à espera do que aconteceria.
A sala não caiu. Discutiu-se, mudou-se uma coisa pequena, e uma outra pessoa disse que também tinha dúvidas e não as tinha querido levantar. No fim, a decisão foi diferente e melhor. Ninguém lhe agradeceu, e ela não precisava.
O que mudou não foi a sua competência, nem o seu caráter, nem a sua generosidade. Mudou o sítio de onde falava. Já não estava a representar a sala dentro de si; estava a trazer para a sala aquilo que só ela podia trazer.
Fica a pergunta, que é a única que este texto tem para oferecer: na última semana, quantas vezes disse o que pensava antes de saber o que os outros pensariam? E, ao contrário, quantas vezes deixou de dizer por medo de ficar sozinho na sala?
Entre as duas respostas está o tamanho do eu que ainda tem para dar.
"O corpo sabe antes de a cabeça formular. Isto não é uma ideia poética; é uma consequência da arquitectura do sistema nervoso. Muita da informação que entra pelos olhos e pelos ouvidos é processada por circuitos rápidos que não passam pela linguagem, e que produzem respostas imediatas: aceleração do coração, contracção dos ombros, um aperto no estômago, a sensação de que o chão é menos firme. Quando a consciência chega, encontra o corpo já em movimento, e depois inventa uma explicação para o que se está a passar.
1 de outubro de 2026 · 10 min de leitura · Filosofia
Simone Weil escreveu, num texto sobre o trabalho, que a atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade. A frase é exigente e vale a pena levá-la a sério. A atenção é o que se dá a uma coisa quando se decide não a despachar. E é nesse dar que o trabalho adquire o peso que normalmente procuramos noutro lado.
"Toda a empresa tem duas constituições. Uma está nos documentos: o pacto social, o organograma, o manual, o regulamento interno, as políticas que se publicam no SharePoint. A outra vive nos gestos: quem fala primeiro nas reuniões, quem pode interromper quem, que assunto se pode levantar ao almoço e qual se guarda para depois, o que acontece de facto a quem falha, o que é preciso fazer para ser promovido.